A Comissão de Saúde realizou nesta quarta-feira (20) uma audiência pública para a apresentação do Relatório Detalhado do Quadrimestre Anterior (RDQA) referente aos primeiros quatro meses de 2026 (de janeiro a abril). Os dados expostos pela Secretaria Municipal da Saúde revelam que o município aplicou 31,16% de suas receitas próprias no setor — o que representa mais que o dobro do mínimo de 15% exigido pela Constituição Federal.
O montante investido de janeiro a abril somou R$ 303.944.811,65, englobando as despesas da Secretaria (o que inclui as despesas administrativas com as UPAs e as UBSFs, e a manutenção de convênios, além de outras unidades especializadas como o Naipe) e do Hospital Municipal São José (HMSJ, que é contado à parte por ser uma autarquia).
No total, somando as fontes próprias e as transferências adicionais da União e do Estado, o orçamento geral executado no período de janeiro a abril alcançou R$ 394 milhões, refletindo um crescimento de 5,81% em comparação ao mesmo período de 2025. O investimento por habitante subiu para R$ 630,00, mantendo uma curva crescente nos últimos quatro anos.
O presidente da comissão, vereador Neto Petters (Novo), destacou a magnitude da estrutura pública local: “O cidadão precisa ter dimensão de que Joinville conta com um orçamento anual previsto de R$ 1,2 bilhão para a saúde em 2026, sustentando o Hospital São José, duas UPAs e 51 Unidades Básicas de Saúde (UBSs)”.
Um dos pontos que merece destaque foi a redução gradual no percentual de joinvilenses cobertos por planos de saúde privados. Conforme a apresentação da gerente da Unidade de Planejamento Estratégico da Secretaria de Saúde, Gabriela Neves Buch, a taxa de cobertura suplementar, que era de 42% em 2025 e 40% na última medição, recuou para 39% (cerca de 255 mil usuários).
Petters afirmou que esse cenário socioeconômico gera impacto direto na rede municipal. “Quanto menor a quantidade de pessoas com plano de saúde, maior é a pressão em cima da saúde pública”, avaliou. A secretária Daniela confirmou a tendência, pontuando que o fenômeno obriga o município a planejar constantemente a reorganização dos fluxos de atendimento.
Os dados de absenteísmo acenderam um sinal de alerta na gestão. No primeiro quadrimestre, a atenção básica registrou 76.597 faltas para um total de 389 mil agendamentos. Esse volume de ausências gerou um custo estimado em R$ 1.130.571,00 (média de R$ 14,76 por consulta perdida).
Nos exames laboratoriais, o índice é ainda mais alarmante. O Laboratório Municipal registrou 28,85% de absenteísmo, enquanto os postos de coleta somaram 22,48%. Na atenção secundária (especialidades e saúde mental), foram cerca de 3,5 mil faltas.
Gabriela Buch observou um padrão preocupante nos Caps e no atendimento especializado: “Temos o dobro do número de faltas em relação ao número de usuários distintos. Isso significa que o mesmo paciente está faltando consecutivamente, quebrando a continuidade do seu tratamento de saúde mental.”
Os dados demográficos atualizados de Joinville — calculados sobre uma população de 664.541 habitantes, conforme o IBGE — apontam que os idosos (60 anos ou mais) já representam 15% da população, aproximando-se da marca de 100 mil cidadãos. A tendência de envelhecimento da população já foi abordada em reunião recente pela Comissão de Saúde em razão da ausência de geriatras na rede.
Para responder a essa transformação demográfica, a Secretaria da Saúde anunciou a abertura de uma consulta pública para a Linha de Cuidado do Idoso. “O envelhecimento por si só não é o foco; queremos o envelhecimento com saúde e qualidade de vida”, defendeu Gabriela Buch.
Sobre esse tema, os vereadores Adilson Girardi (MDB) e Henrique Deckmann (MDB) reforçaram a necessidade de ações preventivas. Girardi lembrou que em breve a cidade terá mais idosos do que crianças. Já Deckmann sugeriu um estudo de estratificação para identificar os pacientes crônicos que mais utilizam a rede e os medicamentos, propondo um trabalho territorial focado em hábitos saudáveis e corresponsabilidade.
A prestação de contas detalhou o ecossistema de saúde municipal, que atualmente atinge 92,72% de cobertura da Estratégia de Saúde da Família (ESF), com 176 equipes atuando nas comunidades. No quadrimestre, as UPAs Sul, Leste e o Pronto-Atendimento Norte realizaram, juntos, 578.089 procedimentos de urgência e emergência. No âmbito hospitalar e de alta complexidade, foram contabilizados 4.313 procedimentos, incluindo 107 transplantes de órgãos e tecidos.
A Secretaria também atualizou o andamento das obras de infraestrutura sanitária na cidade:
A secretaria comemorou ainda a entrega da nova sede do Núcleo de Atenção Integral à Pessoa com Deficiência Intelectual e Transtorno do Espectro Autista (Naipe) e o aniversário de um ano do projeto “Cidade Amiga da Pessoa com Asma”, que rendeu ao município a Certificação Prata.
Ao final da audiência, a secretária Daniela Cavalcante repetiu o apelo para que a população eleve os índices de cobertura vacinal, principalmente entre crianças e idosos. Ela anunciou que, a partir de 1º de junho, as vacinas remanescentes serão liberadas para o público geral. O vereador Adilson Girardi elogiou a iniciativa recente de levar equipes de imunização para feiras livres, como ocorreu no Ceasa.

